OTAN: Aliados, mas não alinhados - Resenha crítica - 12min Originals
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OTAN: Aliados, mas não alinhados - resenha crítica

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Este microbook é uma resenha crítica da obra: 

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ISBN: 

Editora: 12min

Resenha crítica

A OTAN se reúne esta semana em Ancara, a segunda cúpula da aliança na Turquia desde dois mil e quatro. A foto oficial vai mostrar trinta e dois países lado a lado, uma frente única diante do mundo. O que ela não mostra é o tamanho da tensão que está acontecendo entre essas mesmas nações.

A aliança militar mais duradoura do Ocidente vive uma das fases mais difíceis da sua história. Os países ainda se reúnem como aliados. Ninguém garante mais que estejam alinhados.

Quatro crises explicam o descompasso. Nenhuma é retórica: envolvem dinheiro, uma guerra em curso, o comércio e um território.

a conta militar de cada país

No ano passado, na cúpula de Haia, os países da aliança se comprometeram a investir cinco por cento do PIB em defesa até dois mil e trinta e cinco. O valor se divide em duas partes: três vírgula cinco por cento para capacidades militares diretas e um vírgula cinco por cento para infraestrutura e segurança em sentido amplo, de estradas a defesa cibernética.

Parece consenso. Não é. Para a Polônia, que já gasta acima de quatro por cento, a meta é quase um detalhe. Para a Itália, cumpri-la exigiria mais do que dobrar o orçamento atual, e Portugal e Espanha vivem situação parecida. A Espanha negociou uma saída: alega dar conta de suas obrigações com cerca de dois vírgula um por cento e ficou de fora de destinar a verba total. Washington reagiu na hora, com a ameaça de que Madri pagaria em dobro nas negociações comerciais futuras.

Mark Rutte, secretário-geral da aliança, chegou a Ancara cobrando planos concretos e críveis. A matemática é dura. Alguns países se armam de verdade; outros cumprem o alvo no papel, com itens indiretos e prazos alongados. Um número igual para todos esconde um esforço muito desigual.

o relógio e a ameaça

A próxima tensão não aparece em planilhas. Os membros da OTAN veem a Rússia como um problema. Ninguém sabe a que velocidade esse problema chega.

De um lado, o secretariado da OTAN e boa parte da Europa trabalham com a hipótese de que Moscou pode estar pronta para usar força militar contra a aliança já no início da próxima década. É uma leitura de urgência, que pede rearmamento imediato. De outro, a estratégia de defesa mais recente dos Estados Unidos trata a Rússia como um perigo persistente, mas administrável, sem condições de disputar a hegemonia europeia. Moscou segue na lista de todos. A divergência é sobre a posição dela nessa lista, e sobre a pressa das ações.

Essa diferença de relógio pesa direto na Ucrânia. Europa e Canadá prometeram setenta bilhões de euros por ano em apoio militar a Kiev em dois mil e vinte e seis e dois mil e vinte e sete, cento e quarenta bilhões no total. No mesmo período, os Estados Unidos encolhem sua presença no continente e retiram uma brigada da Alemanha e milhares de soldados. Durante a própria cúpula, um ataque com drones matou pelo menos onze pessoas em Kiev, e o presidente ucraniano, na capital turca, pedia mais defesa antiaérea. Por que a guerra não espera.

o comércio como alavanca

Uma geração atrás, o próximo atrito seria impensável: parceiros ocidentais usando o comércio uns contra os outros como pressão política.

No ano passado, Estados Unidos e União Europeia fecharam um acordo em Turnberry, na Escócia. Teto de quinze por cento nas tarifas americanas sobre bens europeus, fim das tarifas europeias sobre produtos industriais americanos. Devia encerrar a turbulência. Não encerrou. No começo deste ano, Washington ameaçou uma tarifa extra sobre oito países europeus, de dez por cento a até vinte e cinco por cento, presa não a uma disputa econômica, mas a uma questão territorial. Aí está a novidade desconfortável: entre aliados, a ameaça tarifária virou linguagem corrente.

uma ilha no meio do caminho

O último foco tem nome e mapa: a Groenlândia. O território autônomo dinamarquês, a maior ilha do mundo, é hoje o nervo mais exposto da relação transatlântica.

Desde o ano passado, a Casa Branca quer a ilha sob controle americano, com o argumento de que ela é vital para a segurança do Ártico e estaria cercada por navios russos e chineses. Em janeiro, em Davos, veio um recuo: sem força, sem tarifas. Durou pouco. Em Ancara, o presidente americano voltou a dizer que a Groenlândia deveria pertencer aos Estados Unidos, e não à Dinamarca, apontou a disputa como o que azedou sua relação com a OTAN e chegou a sugerir a retirada de todas as tropas americanas da Europa.

Copenhague respondeu firme. A primeira-ministra dinamarquesa repetiu que a ilha não está à venda e que o país defenderá cada centímetro do território da aliança, o seu incluído. O detalhe que mede o problema é simples: a Dinamarca é membro fundador da OTAN. A cobiça recai sobre a terra de um aliado, uma contradição difícil de sustentar por muito tempo.

o que mudou

Somados, os quatro focos contam a mesma história. Por décadas, a lógica da aliança foi clara: o interesse coletivo vinha antes do cálculo de cada nação. Esse era o pacto. Abrir mão de um pouco de autonomia em troca de segurança compartilhada.

Ancara mostra a inversão do pacto. Cada país fala mais alto que o acordo entre todos. Gasta-se contra a ameaça que cada um enxerga, não contra uma comum. O comércio vira arma. A terra de um sócio vira alvo. A frente única resiste na foto. Fora dela, começa a ceder.

o que fazer com essa informação

Para quem acompanha os mercados e decide alocação, o recado é concreto. O gasto militar não é gesto político passageiro, e sim receita programável por uma década, com planos anuais de acompanhamento. O setor de defesa europeu saiu do esquecimento e virou prioridade de governo. Vale mapear quais elos da cadeia ganham com cada parte da meta, porque capacidade militar e infraestrutura remuneram empresas diferentes.

Para quem lê política internacional com olho na história longa, a lição é outra. Alianças não caem por um gesto dramático. Desgastam-se por acúmulo, em pequenas quebras de confiança que, somadas, mudam a natureza do vínculo. Vale olhar menos os comunicados oficiais, sempre escritos em tom de unidade, e mais os fatos que os desmentem: as tropas que saem, as tarifas que surgem, os alvos dos quais alguém se exime.

Para quem só quer o essencial, o resumo é direto. O Ocidente ainda se apresenta unido, mas o interesse de cada país já pesa mais que o acordo de todos. É isso que separa esta cúpula das anteriores.

Nenhuma aliança de setenta e cinco anos some da noite para o dia. A OTAN vai deixar Ancara com declaração final e compromissos renovados. Só que o que sustenta uma aliança não é o texto do comunicado, e sim a certeza de que, na hora decisiva, o comum vence o particular. É essa certeza que está em teste agora, em quatro frentes ao mesmo tempo. Aliados, esses países seguem. Alinhados, ainda precisam provar que são.

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